Regi�o do Douro

ALTO DOURO VINHATEIRO

Maravilhosa região de arribas e socalcos onde a videira é tratada com requintes de flor.
Ainda em fins do século passado eram bem raros os viajantes que se aventuravam a percorrer, em toda a sua extensão, a Região Duriense.
A aspereza e inviabilidade dos montes, que na sua máxima parte a constituem, e a difícil e perigosa navegação do rio que lhe dá o nome, através do qual durante séculos se fez a arriscada viagem até ao Porto, tornavam quase inacessível o acesso à sua parte mais rica e povoada, então apenas visitada pelos negociantes de vinhos ou seus comissários, preocupados unicamente com a aquisição do precioso néctar das suas uvas.
E as tradições e as notícias, transmitidas de indivíduo a indivíduo, eram o único roteiro desses mesmos comerciantes e dos raros viajantes que os interesses e a curiosidade levavam àquelas paragens - segundo escreve o visconde de Vila Maior, no seu livro «O Douro Ilustrado», editado em 1876.
Por essa altura - refere ainda o autor em questão - eram bem diferentes de hoje as condições de uma excursão ao longo das margens do Douro através desta região vinhateira: nem estradas carreteiras, nem caminhos para jornadear a cavalo, permitiam seguir sem interrupções essas alcantiladas ribas.
A via fluvial era então a única utilizada para demandar o país vinhateiro, e o ria cortado a miúdo de rápidos e cachoeiras que tornavam extremamente demorada, além de perigosa, a subida dos barcos.
Razão por que o viajante que desejasse percorrer o rio Douro em toda a extensão navegável do seu curso em território português, devia resignar-se a ir buscar o seu ponto de embarque no cais de Barca de Alva, junto à fronteira espanhola, e descer pelo seu veio de água à mercê da corrente e da perícia dos arrais.
Um dos elementos desta odisseia era o barco rabelo, ao fim de pouco mais de meio século quase transformado em objecto de museu e derrotado pelos modernos meios de tracção e transporte, ferroviários e motorizados.
Já quem se lembra dele? E não obstante todo o encanto do Douro perdeu com a sua ausência.
É que o barco rabelo era, no dizer de alguém, a nota alacre e viva, mais animada e típica desta famosa região.
Sem ele, tão curioso como últil, as paisagens do Douro quase não são as mesmas.
Falta-lhe, em verdade, a figura garbosa e intemerata, deste barco de vela rectangular e linhas de gôndola, com grande cauda de espadela, comprida como a dum hidro-avião, a servir de leme.
Foi ele que, durante séculos, transportou o vinho das encostas mais abruptas, dos despenhadeiros, das plagas malditas, inacessíveis e inabordáveis por terra.
É em torno da Régua que a cultura da vinha se patenteia no seu mais viçoso esplendor.
E nada é mais admirável que o panorama que se desenrola à nossa vista, na estação em que as vinhas ostentam todas as suas galas.
Em nenhuma outra parte como quem desce de Lobrigos, de Lamego ou de Armamar, o Douro se nos apresenta nesta vasta imponência paisagística que deslumbra e fascina.
Os vinhedos, estendem-se desde o topo dos montes pelos vales e quebradas até às casas da vila que marginam o rio, cobrindo a terra de fresca verdura, e introduzindo-nos a acreditar que foi aqui que se plantaram as primeiras vinhas que deram o primeiro vinho do Porto, daqui tendo partido o impulso e movimento da colonização que sucessivamente se propagou pelo rio acima.

Correia de Azevedo, em «O Douro Maravilhoso»

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